
O Jardim Secreto do Valongo
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Onde havia chácaras no Valongo, às casas de compra-e-venda da época do mercado de escravizados, aos estivadores com os primeiros sindicatos da cidade, período das transformações que remodelaram a cultura e os contornos da cidade proporcionadas pela transição do Império à República, o legado do Jardim Suspenso do Valongo carrega as múltiplas narrativas históricas alimentadas pela memória coletiva do Rio de Janeiro. Em busca da renovação da região da Zona Portuária da cidade, o Jardim Suspenso do Valongo tem sua inauguração na primavera do ano de 1906, florescendo em meio a uma área envelhecida, estigmatizada e marginalizada da cidade um jardim estilizado. Como marca essencial em sua identidade, o Jardim Suspenso é construído a partir da perspectiva da renovação e da convergência de narrativas. Dessa forma, visando o embelezamento da região como também a edificação de um novo paradigma para o lugar, o reaproveitamento de estatuetas neoclássicas do Cais da Imperatriz (antigo Cais do Valongo), a reutilização de uma das casas da encosta para guarnição e o próprio Jardim surgem como solução urbanística a partir da construção do muro de contenção de encosta.
Do alto, onde a sua imponência é observada pelos que caminham na rua está a Casa da Guarda. Marcada como símbolo do Jardim Suspenso do Valongo é o componente principal na paisagem do espaço. Sua função foi secundária no complexo urbanístico do espaço, passando por ocupações diversas, desde depósito de materiais de manutenção e guarnição à moradia popular. Diante dos abandonos e das reapropriações do local, a Casa da Guarda representou ao longo dos anos as transformações e requalificação do Jardim Suspenso. Suas significações estão diretamente ligadas às histórias herdadas e transmutadas das “casas de compra-e-vendas”, bem como do “antigo sítio de engorda de escravizados recém chegados ao Brasil” e ainda como a “casa de uma princesa”. Unidas em um único corpo, com narrativas distintas e diversas, a Casa da Guarda permaneceu na paisagem como um baluarte da memória coletiva e lugar de permanência frente aos esquecimentos e apagamentos históricos.
Como em uma gangorra do tempo, onde as transformações e requalificações de um território estão organizadas em projetos de soluções e reaproveitamentos urbanísticos de acordo com as priorizações de narrativas históricas, onde os abandonos e reapropriações do espaço tornam-se características da identidade bricolada do Jardim. Nesta perspectiva, o Jardim Suspenso do Valongo se apresenta como um espaço de ressignificações onde as soluções criativas estão presentes para se moldar às novas ações presentes em sua identidade histórica. Não distante desta perspectiva, a Casa da Guarda encontra seu lugar de fala durante o tempo e de modo criativo encontra uma forma particular de se manifestar e deixar sua mensagem. Estática apenas no “corpo”, porém com um espírito fluido que segue os fluxos das transformações culturais, a Casa da Guarda manifesta a missão de resistência e abre espaço para a atuação do Casarão Cultural João de Alabá, em homenagem ao babalorixá referência do candomblé no Rio de Janeiro. A partir desta nova “incorporação”, surge o projeto de criação de um acervo iconográfico com participação comunitária de partilha de memórias do lugar e seu entorno: “O Jardim Secreto do Valongo”.




Produção e Curadoria
Patrícia Mentorco
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Equipe de produção
Sérgio Araújo Inácio
Thiago Viana
​Theo Oliveira
Colaboradores
Helder Magalhães Viana
Leonardo Paiva
Nely Félix
Odilon Freitas
Artistas
Mídias Sociais
Luíz Gustavo Nostalgia
Maria Gabriela Moura
Marina Alfaya
Raquel Batista
Yaya Ferreira​​​
/jardimdovalongo
@jardimsecretodovalongo
@casaraoalaba
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​Fotos: João Maurício Bragança​
Contato